O Avesso do Olhar: Quando o Estranhamento nos Devolve a Vida
Há dias em que as palavras parecem gastas. Repetimos "bom dia", "trabalho", "tempo" e "rotina" de forma quase mecânica, como se fossemos robôs programados para operar no piloto automático. Mas, de vez em quando, algo estala. Uma palavra comum de repente soa estrangeira na boca. Você a repete mentalmente até que ela perca a forma conhecida e ganhe... outra coisa. O sentido real.
Como escreveu Clarice Lispector:
"Quando estranho a palavra é aí que ela alcança o sentido. E quando estranho a vida aí é que começa a vida. Tomo conta para não me ultrapassar."
O Despertar pelo Estranhamento
Estranhar, aqui, não significa achar ruim ou bizarro. É o ato de tirar a poeira do hábito. Quando olhamos para a nossa própria existência e pensamos: "Espera, o que é tudo isso mesmo? Quem sou eu dentro disso?", a anestesia do cotidiano quebra.
É nesse susto — no desencaixe — que a vida realmente começa. É quando deixamos de apenas existir e passamos a sentir o peso e a beleza de estar vivo.
O Limite do Sentir
Mas Clarice, cirúrgica como sempre, nos deixa um alerta no final: “Tomo conta para não me ultrapassar.”
Viver com essa intensidade e lucidez exige um filtro. Se mergulharmos fundo demais em cada questionamento, em cada estranhamento da existência, corremos o risco de nos diluir, de perder o chão sob os pés. É preciso ter a coragem de olhar o abismo do sentido, mas também a sabedoria de dar um passo atrás para autopreservação.
E você? Quando foi a última vez que parou para realmente estranhar — e viver — o seu momento presente?
Gostou da reflexão? Deixe seu comentário abaixo e compartilhe como você lida com os seus próprios momentos de "estranhamento".


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